Alguns desses livros são doados por amigos e clientes, e um deles tem uma história muito legal de como ele veio até a minha biblioteca. O livro em questão é o “Caso da Borboleta Atíria”, mas deixe-me contar como aconteceu.
Antigamente eu tinha uma cliente que vinha todas as manhas com seu filho aqui no café, ela vinha para buscar um sanduíche natural e já seguia seu caminho com o seu filho. Com o tempo e conforme fui conhecendo ela, fiquei sabendo que ela daqui ia levar o filho no colégio que existe aqui próximo e logo depois ia trabalhar.
Na porta do café existe um vaso com uma pequena arvore, aquelas arvores de escritórios, que não crescem muito. E em uma desses dias me chamou atenção o filho da moça um dia ficou parado olhando para o vaso e quando sua mãe o chamou para irem ele a chamou e lhe mostrando uma lagarta perguntou o que era.
- A meu filho - falou ela com uma cara um pouco de repugna ao ver o animal - o que você quer com esse animal feio? - e começou a apurar a criança
- Mãe, Mãe, só quero saber o que é, ele é tão estranho.
- É uma lagarta filho, e agora vamos que estamos atrasados.
No outro dia eu vi que a criança, estava com um ar mais curioso em relação a lagarta. Vendo este interesse fui conversar com o garoto para saber o que tanto lhe atraía.
- Vejo que continua interessado na lagarta - falei ao me aproximar
- É eu quero ver ela virar borboleta - falou o garoto, e antes que eu pudesse falar algo, ele prosseguiu - Eu contei pra sora ontem desse bichinho, e ela contou que as lagartas viram borboletas, quero ver essa virar uma.
Fiquei admirado e acompanhei o guri olhando a lagarta que neste exato momento estava degustando uma das folhas da árvore. Percebi que ele tinha na mão um livro, e reconhecendo a capa, perguntei.
- E este livro? Não é o Caso da Borboleta atiria?
- É sim, a sora depois que eu falei sobre a lagarta ela falou pra gente ler este livro.
- Achei muito boa a atitude dela - Comentou a mãe da criança se aproximando - Mas agora temos que ir senão você chega atrasado na aula.
Passava os dias e a criança estava sempre atenta aos movimentos da lagarta, até que um dia ele não a encontrou. Com os olhos cheio de lágrima veio me perguntar se eu tinha tirado ela dali.
- Não, e ninguém mexeu na planta também - eu respondi
- Mas ela não está mais lá, cadê ela?
- Deixe-me ver - E fui ver o paradeiro da lagarta
A lagarta não tinha fugido, ela tinha ja tinha feito seu casulo, por isso ele não a encontrou. Mostrei o casulo e expliquei de uma forma rápida o que estava acontecendo, e assim ele se acalmou, E me perguntou?
- Será que ela vai ser igual a do meu livro?
- Teremos que esperar para ver - eu respondi.
E antes de irem embora, a mãe do garoto deixou um cartão e pediu, se não fosse incomodo, eu entrar em contato com ela se eu visse o casulo se abrindo, para ela poder trazer o filho.
Bem, queria que o garoto visse aquela borboleta, ele acompanhou a evolução daquela lagarta, todas as manhãs ficava olhando para o casulo, e muitas vezes comentava que via o bichinho se mexendo lá dentro. Comecei realmente a cuidar, qualquer sinal de que ela ia sair do casulo, eu iria entrar em contato, para assim o garoto poder ver.
Era umas 9hs da manhã, e o casulo começou a se abrir, e com isso entrei em contato com a mãe do garoto.
- Oi, é a mãe do garotinho que vem todos os dias ver a lagarta?
- Sim, sou eu - Não precisei contar - Vai me dizer que ela está saindo?
- Sim, arressem começou a abrir, imagino se vir rápido conseguem ver ela saindo ainda.
- Moço, eu não consigo ir ai, mas vou telefonar para o colégio e farei o possível para ele ir ai.
- Legal, mas rápido, pois não posso trancar ela lá dentro não!.
Desliguei o telefone e torci para nenhum cliente aparecer, pois também estava admirando o acontecimento. Dado uns 5 minutos eu comecei a ouvir vozes de crianças, quando fui olhar para o lado que vinham as vozes me deparei com umas 20 crianças, paradas na minha frente
- O tio, aonde está a Atíria? - Um deles me perguntou
- Aqui, aqui - Respondeu por mim o garoto que acompanhou o crescimento da lagarta - que legal, ela está saindo
Me afastei e deixei aquela criançada olhar, foi quando eu percebi a professora, que me contou, que depois de que o garoto todos os dias falava sobre a lagarta e que ela tinha virado um casulo, que com isso não só ele, mas quase todos estavam lendo o livro, e assim já tinham até colocado o nome da borboleta de Atíria, por causa das aventuras do livro.
- Não toquem, lembre-se ela tem que sair sozinha - falou a professora para os alunos
- Ta bom sora - respondeu um deles
O espetáculo não durou muito, logo a borboleta saiu por completo do casulo, mexeu suas asas e já saiu voando em busca de flores, algumas crianças saíram correndo na parte de fora para ver aonde ela ia, e logo ela se sumiu por entre as árvores que existem aqui ao redor.
A professora me agradeceu por ter avisado e chamando os alunos voltou para o colégio. No outro dia, como de costume a mãe e o garoto pela manhã passaram aqui, mas o garoto não mas olhava para as árvores, tentando observar a sua borboleta. A mãe me entregou o livro para eu colocar na minha estante, me contando que aqui será mais útil do que na casa deles, onde todos já leram o livro.
De vez em quando eu recebo uma visita de alguma daquelas crianças, hoje já maiores, que vem e ficam contemplando as árvores para quem sabe ver a Atíria, a borboleta que aqui cresceu.

